Binoviewer ELS: primeiras impressões

Na última semana recebi para teste, da loja Tellescópio, o novo binoviewer ELS da Long Perng. A Long Perng é uma fabricante taiwanesa de instrumentos ópticos já bastante conhecida, fornecendo equipamentos vendidos sob outras marcas no ocidente.

Além de apresentar o binoviewer ao mercado brasileiro, considerando ser este um acessório relativamente desconhecido, o que torna a análise mais importante é o fato da óptica deste equipamento ser diferente das demais opções disponíveis, tanto de baixo quanto de alto custo.

Como o binoviewer chegou?

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O binoviewer ELS vêm acomodado em uma maleta de polímero à prova d’água, exatamente como no Baader MarkV. A maleta da ELS é notavelmente maior, permitindo adicionar além da diagonal um par de oculares com bastante facilidade, principalmente considerando que o interior é preenchido com espuma pré-cortada, o que facilita muito a tarefa de personalizá-la para outros itens.

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Além do binoviewer, dentro da maleta estava um pouco de sílica gel para reduzir a umidade e o manual de instruções.

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O binoviewer usa o padrão 1.25”, possui ajuste de distância interpupilar (DIP) de deslizamento, com marcação na área central informando o valor da DIP, o que facilita para reajustar rapidamente no caso de troca do observador. O ajuste de dioptria no lado direito também possui marcações. As oculares são presas por um sistema de travamento twist lock, bastando girar o anel para travar ou destravar a ocular.

Óptica

Chegamos no ponto onde este equipamento difere dos demais, a óptica empregada. Um binoviewer convencional usado para astronomia emprega prismas para dividir a luz que vem dos telescópios e direcionar para as duas oculares. Ao inserir um binoviewer, a luz primeiro deve passar por estes prismas, o que implica num afastamento da ocular do seu ponto de uso habitual. Para conseguir foco neste caso, é preciso mover o focalizador para dentro do tubo, de forma a compensar este caminho adicional da luz.

Este é um dos principais problemas no uso do binoviewer, ele exige um backfocus em média de 110mm, algo que poucos telescópios estão aptos a fornecer. Para conseguir foco nestes equipamento faz-se necessário o encurtamento do tubo óptico ou o emprego de barlow com o objetivo de reduzir o backfocus necessário.

O modelo da ELS tomou um rumo diferente, escolheu um design óptico que emprega, ao invés de prismas, lentes e espelhos, de forma a não exigir backfocus adicional. O sistema de lentes age como um sistema relay que desinverte a imagem e reduz o lightpath efetivo para zero, enquanto que a luz recebida pelo telescópio, ao invés de ser dividida por um prisma (beam splitter), é dividida por um espelho.

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O curioso deste tipo de divisão é que ele gera uma pupila de saída em formato de meia lua, como se literalmente houvesse uma obstrução na abertura do telescópio, ao contrário dos prismas, onde a pupila de saída permanece circular, mas com metade do brilho. Ao observar não há diferenças, a imagem é vista como um todo, uma vez que a divisão não é feita no plano focal.

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O binoviewer ELS então permite o uso em praticamente qualquer telescópio por não exigir backfocus adicional e no caso dos newtonianos, torna a imagem corrigida. Mas há o lado negativo da utilização deste sistema óptico.

Como podem ver no esquema, há o emprego de vários elementos ópticos, 9 elementos em 7 grupos, sendo dois destes espelhos. São 10 superfícies de lentes e 2 de espelhos para cada olho, um número considerável. Assumindo que as lentes tenham um revestimento antirreflexivo com transmissão de, digamos, 99,5% e os espelhos possuam reflexão de 99%, isso daria uma transmissão total ao sistema de 93,22%. Ou seja, cada olho receberia metade deste valor, 46,61%. Um binoviewer de prisma como o Baader MarkV tem sua transmissão total entre 95-96% (47,5-48% em cada olho). Teoricamente não é uma diferença grande, ainda não tive condições de pôr isso à prova, mas o farei em breve.

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Prismas de um Baader MarkV. Foto de Denis Levatić.

Outro problema advindo do uso de tantos elementos seria o espalhamento da luz (scattering), que tende a ser maior e merece um teste adequado sobre seu impacto no contraste, principalmente considerando que o principal uso dos binoviewers costuma ser na observação lunar e planetária.

Será preciso também analisar com cuidado o impacto na qualidade de imagem ao usar telescópios de relação focal baixa, embora nesta área um binoviewer com prismas também tenha seus problemas.

A maior limitação dos sistemas relay fica por conta da abertura livre, que neste binóculo é de 17.4mm segundo o fabricante. Voltarei neste ponto no próximo tópico.

Primeiros testes

O primeiro teste era saber se o backfocus exigido era mesmo zero e de fato, é possível classificar o binoviewer como parfocal, exigindo, se muito, um ajuste mínimo no focalizador.

O segundo teste que fiz foi para ver como se comportariam as oculares de maior distância focal devido à restrição da abertura livre do binoviewer em 17.4mm. Inicialmente esperava um comportamento semelhante ao presente nos demais modelos, onde normalmente temos uma vinhetagem leve e após certo limite, uma mais intensa, resultando em limitação do campo da ocular. No entanto o resultado foi bem diferente do esperado.

Ao colocar o par de oculares Delite 18.2mm, que possuem um field stop de 19.1mm, esperava encontrar apenas uma suave vinhetagem, mas a redução de campo era evidente. O mesmo não ocorria ao usar uma Delos 14mm, cujo field stop é de 17.3mm, 0.1mm abaixo da abertura livre do binoviewer. Este teste mostrou que não há margem para ir além da especificação de abertura livre, exigindo uma cuidadosa seleção das oculares usadas ou se adaptar à redução de campo.

Na outra extremidade, tentei usar um par de Delites 7mm, mas o desalinhamento nesta ampliação torna a observação impossível. Isso não necessariamente é um defeito, geralmente não se recomenda utilizar oculares abaixo de 10mm justamente por potencializar os problemas de alinhamento e demais aberrações introduzidas pelo binoviewer. Apenas como nota, no Baader MarkV o uso das Delites 7mm não gera nenhum desconforto notável.

Como ainda não tive a oportunidade de testar no céu noturno devido às chuvas de janeiro, apenas posso fazer uma avaliação superficial da qualidade óptica. Não notei nenhum problema grave além de uma leve introdução de aberração cromática ao utilizar um newtoniano f/5, resta saber se é isso de fato e se há outros tipos de aberrações presentes, principalmente em sistema de baixa relação focal.

Considerando o que foi analisado acima e até mesmo a recomendação do fabricante, o ideal seria ficar com oculares intermediárias e fazer uso de redutor focal ou barlow para conseguir, respectivamente, menores e maiores ampliações. Como não tenho nenhum redutor focal para uso visual, ainda não pude avaliar o comportamento do ELS, mas em relação às barlows, uma surpresa não muito positiva.

Ao utilizar barlow para aumento da distância focal efetiva notei o surgimento de áreas de sombra no campo visual, provavelmente porque o sistema de lentes do binoviewer não está lidando bem com os raios divergentes oriundos da barlow, algo que acontece também em diversas oculares. Ao empregar um sistema telecêntrico, no caso uma Tele Vue Powermate, o problema da sombra é totalmente resolvido e ele funciona como deveria. Isso não é algo muito positivo pelo custo mais alto destes em relação às barlows tradicionais, colocando mais uma restrição relativa no emprego deste binoviewer.

Falando em preço, como se trata de um produto novo, poucas lojas o estão comercializando, sendo a Tellescópio uma das primeiras. A Kasai no Japão está comercializando o ELS pelo preço equivalente de 440 dólares e a APM e TS na Alemanha por 390 dólares. Isso o coloca como um binoviewer de valor intermediário, mais caro que os modelos de prisma de entrada, mas ainda mais baratos que os modelos topo de linha. No Brasil acontece algo diferente, com o ELS custando 1300 reais, algo surpreendente para quem está acostumado com os altos impostos e produtos com preços equivalentes bem superiores aos oferecidos no exterior. Se for comparar com os modelos de prisma básicos, é bem comum encontrar modelos usados sendo ofertados por valor praticamente igual, o que torna o ELS bem competitivo neste cenário. Resta saber se esta disparidade irá se manter.

Encerro aqui esta primeira parte da análise do ELS e, conforme os novos testes forem realizados, irei adicionando informações sobre como o equipamento se comporta nos testes em diferentes telescópios na observação do céu noturno.

Fiquem à vontade para tirar dúvidas nos comentários e dar sugestões sobre o que mais gostariam que fosse avaliado neste binoviewer.

 

Retorno ao blog

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Depois de vários meses de inatividade pretendo retornar com publicações mais frequentes aqui no blog, incluindo relatos de atividade do Observatório Ophiuchus, análises de equipamentos e artigos técnicos sobre instrumentos astronômicos.

Ainda esta semana postarei uma análise do binóculo Fujinon 10×50 FMTR-SX e, com exclusividade, uma avaliação inicial do novo binoviewer ELS da Long Perng. Não percam!